• A crescente escassez de recursos naturais impulsiona uma nova corrida geopolítica, posicionando a América do Sul, especialmente Brasil e Cone Sul, como foco estratégico para investimentos globais.
  • A competição multipolar atual segue fases históricas de colonização, com China e Índia expandindo investimentos e controle em regiões como América Latina e África, enquanto conflitos aumentam em áreas como o mar do Sul da China.
  • O fenômeno nearshore fortalece a América Latina como alternativa industrial segura e de baixo risco para mercados dos EUA e Europa, exigindo do Brasil diversificação de clientes e fornecedores para reduzir dependência da Ásia.
Resumo supervisionado por jornalista.

A volta da competição geopolítica multipolar traz consigo uma corrida por recursos naturais, o que lembra em muito o período neocolonial (1870-1914).

Neste contexto, o Brasil está inserido em função de sua riqueza em recursos naturais, sua dependência de exportação e por ser um “porto seguro” de investimentos, longe das zonas de conflito.

A nova corrida colonial

Na busca da eliminação da miséria e da fome, em particular nos países emergentes, mas também do aumento da economia em todo o mundo, surge uma necessidade cada vez maior de água, comida, energia e minérios.

A tendência de longo prazo é que os recursos naturais se tornem mais escassos – e isso leva a uma disputa por eles, bem como a uma corrida tecnológica para reduzir estes gargalos. Entretanto, os avanços tecnológicos são bem mais lentos do que a demanda de curto prazo exige.

O efeito final tem várias facetas, tais como as disputas por energia na forma de petróleo e gás, mas também por Elementos de Terras-Raras (ETRs), investimentos em pesquisa de fusão nuclear e datacenters em órbita baixa (LEO, da sigla Low Earth Orbit).

A demanda por comida e água, em particular da Ásia, nos traz o tema da importância do agronegócio brasileiro e sua dependência de rotas navais abertas para exportação. Traz também a vulnerabilidade de importação de insumos, tais como fertilizantes. 

Os processos desta nova corrida colonial (1980 em diante) são análogos aos das corridas coloniais anteriores (1492-1618 e 1870-1914). Primeiro existe uma fase de importação simples, para evitar custos fixos. Depois uma segunda fase de investimentos, onde aumentam-se os custos fixos para diminuir os variáveis. A terceira fase é a de criar defesas ao longo das rotas navais e, finalmente, a quarta e última fase é quando se busca estabelecer monopólio de acesso por meio de colônias e protetorados. 

Hoje vemos a China na fase dois na América Latina. China e Índia na fase três na África. A fase quatro se materializa no Sudeste da Ásia, em particular no mar do Sul da China.

É importante notar que os outros dois períodos coloniais levaram a disputas crescentes e terminaram em guerras mundiais (Guerra dos Trinta Anos e Primeira Guerra Mundial).

Nearshore e o “Porto Seguro”

Mapa do Brasil sobreposto a uma colagem de papéis com elementos gráficos e mapas relacionados a recursos naturais.
Imagem gerada digitalmente

Dentro deste quadro de disputa global, as empresas buscam locais seguros para investir, e a América Latina desponta como uma das melhores escolhas, pois combina custo e riscos relativamente baixos. Locais com menor risco têm custos excessivamente altos, em geral na Europa Ocidental, EUA e Canadá. 

Isto tem levado ao fenômeno do nearshore, isto é, um offshore, mas perto dos principais mercados consumidores. 

O nearshore dos EUA tem sido a América Latina, em particular o México, que já é o maior parceiro comercial dos EUA desde 2023. Porém, o México já começou a ficar saturado, e com isso os EUA buscam opções no restante da América Latina. Embora existam boas oportunidades em países pequenos, tais como Costa Rica, Panamá, Paraguai e Uruguai, na prática Brasil e Argentina são os com maior potencial de absorver uma capacidade industrial de grande volume que agora quer evitar a Ásia.

Para a Europa ocidental o nearshore foi o Leste da Europa por cerca de trinta anos. A guerra na Ucrânia mudou esta percepção. Seu destino virou para o Sul da Europa, Norte da África e América Latina.

Em paralelo existe uma busca de ativos que sejam seguros em relação a disrupções tecnológicas. Tal movimento seja chama HALO (High Assets Low Obsolescence). As economias da América Latina são particularmente boas neste tipo de ativo, e são resilientes, até por se concentrarem em setores primários e de consumo de massa.

No geral surge uma nova tese de investimento, de que o crescimento econômico global será concentrado nas próximas décadas na América do Sul, em particular no Mercosul e Chile, ou no Cone Sul.

Com isso surgiram termos que reforçam este movimento, tais como “encurtamento das cadeias globais”, “Swap shore”, “China+1” e “ABC” (Anywhere But China). Todos estes termos estão de certa forma alinhados com uma percepção de que o risco da Ásia ficou grande demais.

Capturando as oportunidades

As empresas do Brasil têm de buscar espalhar suas operações por todo o Cone Sul, e se integrar nas cadeias globais vendendo-se como um “porto seguro” e uma alternativa viável, de longo prazo, para a Ásia.

Num ambiente de extremo risco, o Brasil e o Cone Sul se mostram como a grande alternativa que combina resiliência, antifragilidade e oportunidade de crescimento.

Entretanto, isso implica em diversificação de clientes e fornecedores, para reduzir a dependência excessiva da Ásia, e em particular da China.

Paulo Vicente dos Santos Alves (Foto: Divulgação)

* Paulo Vicente dos Santos Alves é professor da Fundação Dom Cabral, doutor em administração pela FGV, diretor acadêmico do PGA (FDC-INSEAD), Colunista do Diário do Comércio e conselheiro consultivo da ABIMDE.

Dúvidas mais comuns

Recursos naturais são elementos extraídos da natureza que têm como finalidade suprir as necessidades humanas, como solo, água, oxigênio, energia solar, florestas e animais.

A América do Sul, especialmente o Brasil e o Cone Sul, é vista como um 'porto seguro' para investimentos devido à sua riqueza em recursos naturais, menor risco geopolítico comparado a outras regiões e potencial para crescimento econômico, atraindo empresas que buscam diversificar suas operações longe da Ásia.

A nova corrida por recursos naturais refere-se à crescente competição global por água, comida, energia e minérios, impulsionada pela escassez desses recursos e pela demanda crescente, especialmente em países emergentes e na Ásia, levando a disputas por acesso e investimentos estratégicos.

Embora haja avanços tecnológicos para reduzir gargalos no uso de recursos naturais, esses avanços são mais lentos do que a demanda de curto prazo exige, o que intensifica a competição por recursos como petróleo, gás, elementos de terras-raras e investimentos em tecnologias emergentes como fusão nuclear e datacenters em órbita baixa.

Nearshore é um fenômeno onde empresas buscam locais próximos aos principais mercados consumidores para investir e produzir, combinando custos relativamente baixos e menor risco, como a América Latina para os EUA, que tem se tornado uma alternativa à Ásia para a realocação industrial.

A nova corrida colonial passa por quatro fases: 1) importação simples para evitar custos fixos; 2) investimentos para reduzir custos variáveis; 3) criação de defesas ao longo das rotas navais; e 4) estabelecimento de monopólio de acesso por meio de colônias e protetorados, com a China e Índia atualmente em fases intermediárias em diferentes regiões.

As empresas brasileiras devem diversificar clientes e fornecedores, integrar-se nas cadeias globais e posicionar-se como um 'porto seguro' no Cone Sul, aproveitando a resiliência e o potencial de crescimento da região para reduzir a dependência da Ásia, especialmente da China.