“Gostem ou não, a China é uma parceira inevitável e um ator valioso na cadeia global de valor”, afirma Jingshu Du, professora associada de Inovação e Estratégia na EMLV Business School, em Paris, em entrevista ao Seja Relevante. Com 1,4 bilhão de habitantes — muitos com poder de compra crescente —, o país oferece hoje uma combinação perfeita entre espaço para inovação tecnológica e um mercado consumidor massivo — fatores que precisam ser considerados em qualquer análise econômica global.
Questionada sobre as tendências de negócios para os próximos cinco anos, Du apontou para um futuro moldado pela implementação de tecnologias de ponta, desenvolvimento sustentável e uma combinação de investimentos e parcerias público-privadas. Segundo ela, esse ambiente será mais aberto a empresas privadas, incluindo estrangeiras, que passarão a ter mais autonomia para comercializar e operar no país. A ênfase na sustentabilidade e no reaproveitamento de materiais (upcycling) tem sido — e continuará sendo — uma característica marcante nos próximos anos, junto com o crescimento de indústrias inteligentes e eficientes.

Um ambiente com baixa regulação
Contrariando suposições comuns, Du argumenta que a China atualmente oferece um ambiente de negócios relativamente liberal, com poucas barreiras regulatórias para startups e grandes empresas — especialmente no setor de alta tecnologia. Isso tem levado à rápida expansão de polos de inovação e incubadoras, atraindo talentos tanto nacionais quanto internacionais para iniciar negócios no país. Com espaço para crescer, a China hoje ocupa o primeiro lugar no mundo em termos de PIB com base na Paridade de Poder de Compra (PPC) — uma métrica que compara economias considerando o poder de compra relativo das moedas.
Du também comentou os efeitos do conceito de “prosperidade comum”, introduzido pelo Partido Comunista Chinês (PCC), que implica maior controle estatal sobre setores como educação e saúde, com o objetivo de reduzir desigualdades. Ela rejeita a ideia de que essa iniciativa possa sufocar os negócios, ressaltando que a China possui setores altamente desenvolvidos e outros ainda em desenvolvimento. Em sua visão, a “prosperidade comum” beneficiará áreas rurais, por exemplo, ao melhorar seu padrão de vida.
Uma nova geração de líderes empresariais
Du destacou uma dinâmica interessante na economia chinesa: a ascensão de uma nova geração de líderes empresariais, especialmente nas áreas de tecnologia e ESG. Essa nova geração é “ousada, confiante, inteligente, de mente aberta e curiosa, mas profundamente preocupada com a sociedade e o meio ambiente.” Muitos desses líderes nasceram durante o período da política do filho único. Embora controversa, Du observa que essa política estimulou uma geração que recebeu altos investimentos — tanto dos pais quanto do governo — em educação e desenvolvimento pessoal. Como resultado, surgiu uma geração com mais oportunidades, horizontes mais amplos, maior criatividade e inovação, e com capital humano, social e financeiro mais robusto.
Sobre a priorização de setores econômicos estratégicos, Du afirmou que a China já alcançou níveis avançados em áreas como tecnologia verde, inteligência artificial e manufatura avançada. No entanto, embora reconheça que a China seja uma superpotência, ela argumenta que o país não deve ser visto como a líder global única, mas sim como um colaborador significativo, coordenador e um parceiro confiável na construção de novas cadeias de valor ao lado de outras nações.
5 mil anos de cultura e história

Como um dos berços da civilização, a China carrega 5 mil anos de história cultural — algo que deve ser respeitado ao se fazer negócios com ou dentro do país. Antes uma economia fechada, a China agora abriu suas portas para novas iniciativas.
Du oferece conselhos a profissionais e executivos interessados em fazer negócios com os chineses: “Mantenha a mente aberta e evite julgamentos; esteja pronto para se surpreender e ser desafiado; e esteja disposto a aprender com o outro lado.” Ela invoca os ensinamentos de Confúcio ao sugerir que as empresas podem ter mais sucesso na China se abordarem os relacionamentos com humildade e curiosidade.
“É mais apropriado ver a China como uma parceira que quer colaborar e cocriar, do que como uma superpotência que busca dominar o mundo. Tudo está enraizado na harmonia, na cultura ‘Zen’ e na natureza — elementos centrais da filosofia tradicional chinesa que moldaram o país e seu povo ao longo de milênios e que ainda têm grande valor hoje”, conclui.
Na cultura chinesa, há uma parte significativa que é não verbalizada — o que se chama de “conhecimento tácito”, influenciado pela cultura Zen e por Confúcio. Em chinês, isso é chamado de “留白” (liú bái), que significa “deixar um espaço em branco”. Esse conceito existe há milhares de anos e pode ser interpretado de várias formas. Para evitar mal-entendidos e promover uma comunicação mais eficaz, é melhor sempre perguntar e validar antes de fazer julgamentos ou recorrer a estereótipos. Naturalmente, conhecer um pouco da língua chinesa e da sua história (especialmente do século XIX e início do século XX, e dos grandes sacrifícios enfrentados pelo país e seu povo), combinado com os valores culturais tradicionais (Zen, harmonia, paz, natureza), ajuda bastante a entender de onde a China veio — e para onde está indo.
PIB cresceu 5,4% no primeiro trimestre
Dados recentes sugerem que essa filosofia milenar continua produzindo resultados. Segundo a CNN Brasil, o PIB da China cresceu 5,4% no primeiro trimestre deste ano. O número superou as expectativas de mais de 50 economistas ouvidos pela Reuters, que previam um crescimento de 5,1%, e reflete uma expansão impulsionada pelas exportações. O período relatado antecede as tarifas impostas pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a segunda maior economia do mundo.
O crescimento chinês está sob os holofotes enquanto o país enfrenta uma guerra comercial em escalada com os EUA — além de problemas persistentes como a crise no setor imobiliário, riscos de deflação e baixa confiança do consumidor.
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Tendências de alta
“A economia nacional teve um início estável e positivo, continuando a tendência de alta”, disse Sheng Laiyun, vice-diretor do Departamento Nacional de Estatísticas (NBS). “No entanto, também devemos reconhecer que o ambiente externo está se tornando mais complexo e desafiador, e o ímpeto da demanda interna continua insuficiente”, disse ele à CNN.
Sheng também afirmou que a China se opõe às barreiras comerciais dos EUA e ao que chamou de “bullying econômico”. Embora as tarifas exerçam “alguma pressão” sobre a economia chinesa, ele observou que elas “não podem reverter a tendência mais ampla de melhora econômica de longo prazo”.
Meta de crescimento e tarifas bilaterais
Em março, Pequim estabeleceu uma meta ambiciosa de crescimento de “cerca de 5%” para o ano — um sinal de confiança em sua economia voltada para exportações. No entanto, devido às taxas anunciadas (e atualmente suspendidas) pelo governo de Donald Trump, economistas disseram que essa meta pode ser difícil de atingir, pois as exportações, que cresceram 12,4% em março, dificilmente manteriam o mesmo ritmo.
Em nota recente, economistas do UBS revisaram para baixo a previsão de crescimento da China em 2025, de 4% para 3,4%, considerando que as tarifas bilaterais permaneçam em vigor.
O presidente dos EUA e o presidente da China, Xi Jinping, têm se reunido para tratar de novos termos para o acordo comercial, equilibrando a taxação, mas ainda sem consenso.
No paralelo, Zichun Huang, economista da Capital Economics, disse que o governo chinês provavelmente introduzirá mais políticas para estimular o consumo doméstico nos próximos meses — medidas que, segundo ela, serão suficientes para manter o crescimento acima de 4%.
Dúvidas mais comuns
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A China é considerada um parceiro inevitável na economia global devido ao seu enorme mercado consumidor de 1,4 bilhão de habitantes com poder de compra crescente, além de ser um centro de inovação tecnológica e um ator valioso na cadeia global de valor. Esses fatores tornam o país essencial para análises e estratégias econômicas globais.
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Contrariando suposições comuns, a China oferece um ambiente de negócios relativamente liberal, com poucas barreiras regulatórias, especialmente para startups e empresas de alta tecnologia. Isso tem impulsionado a rápida expansão de polos de inovação e atraído talentos nacionais e internacionais para iniciar negócios no país.
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As tendências para os próximos anos incluem a implementação de tecnologias de ponta, foco no desenvolvimento sustentável e crescimento de indústrias inteligentes e eficientes. A China também deve abrir mais espaço para empresas privadas, inclusive estrangeiras, com maior autonomia para operar e comercializar no país.
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A cultura chinesa, com seus 5 mil anos de história, valoriza conceitos como harmonia, filosofia Zen e o conhecimento tácito chamado "liú bái" (deixar um espaço em branco). Para ter sucesso nos negócios, é importante manter a mente aberta, evitar julgamentos precipitados e abordar os relacionamentos com humildade e curiosidade, respeitando esses valores culturais.
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A China ocupa o primeiro lugar mundial em PIB com base na Paridade de Poder de Compra (PPC), refletindo seu grande poder de compra interno e produção. Embora seja uma superpotência econômica, a China é vista como um colaborador e parceiro confiável na construção de cadeias globais de valor, e não como a única líder global.
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A política de "prosperidade comum" visa reduzir desigualdades sociais por meio de maior controle estatal em setores como educação e saúde. Essa iniciativa não sufoca os negócios, mas beneficia áreas rurais ao melhorar o padrão de vida, equilibrando o desenvolvimento econômico e social no país.
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No primeiro trimestre de 2024, o PIB da China cresceu 5,4%, superando as expectativas de analistas. Esse crescimento foi impulsionado pelas exportações, apesar dos desafios como a guerra comercial com os EUA, crise no setor imobiliário e baixa confiança do consumidor.
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A China tirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema em aproximadamente 40 anos por meio de reformas econômicas iniciadas nos anos 80, crescimento acelerado, investimentos em infraestrutura e programas de combate à pobreza. Essa transformação criou a maior classe média do mundo e reduziu drasticamente a pobreza absoluta.