Estamos em 2025 e falta pouco para o fim do prazo da Agenda 2030, mas nenhum país está a caminho de atingir os objetivos de igualdade de gênero até lá, o que só deve ser alcançado no próximo século. O panorama não é nada positivo: só entre 2019 e 2022, quase 40% dos países estagnaram ou declinaram nos índices de igualdade para as mulheres. Os dados constam de relatório da Equal Measures 2030, coalizão global que cobra governos e acompanha o avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de gênero em 139 países.  

Publicado no site Think Eva, uma ONG que visa construir um mundo com maior equidade de gênero por meio do setor privado, um resumo do relatório calcula que, com as perspectivas de igualdade a serem atingidas apenas no próximo século, uma menina que nasce hoje vai esperar 97 anos para ver a igualdade de gênero ser alcançada no mundo. O quadro negativo é resultado de uma sucessão de crises econômicas, sociais e políticas que o planeta enfrenta atualmente, e deverá continuar enfrentando nas próximas décadas.

Índices podem recuar até o patamar de 2015

O relatório alerta ainda que, se a tendência de recuo ou estagnação permanecer nos países, as desigualdades globais de gênero poderão ser piores em 2030 do que eram em 2015, ano em que os ODS foram criados. A questão feminina ganha ainda mais peso, já que, segundo o Equal Measures 2030, 74% (ou quase três quartos) das metas dos ODS, são consideradas direta ou significativamente dependentes da igualdade de gênero.

O Equal Measures 2030 classificou 65% dos países analisados como “pobres” ou “muito pobres” em relação à proteção de direitos pessoais, individuais e contra a discriminação feminina. E, inacreditavelmente, o índice que registra o direito das mulheres de discutirem questões políticas em espaços públicos e privados registrou queda entre 2015 e 2022. 

Classificação do Brasil é pobre

Na escala global, o Brasil apresenta um índice de igualdade de gênero considerado “pobre”, ocupando a 64ª posição na relação de países e o 6º lugar na América Latina. De 2019 a 2022, os avanços brasileiros foram rápidos, mas a previsão para os próximos anos é de lentidão. O Brasil se destaca pelas leis que protegem e reconhecem a orientação sexual e identidade de gênero, e também na cobertura estatística de indicadores de gênero. Porém, ainda desempenha mal em relação à presença feminina em cargos de alto escalão do governo.

Já a pesquisa “Perfil Social, Racial e de Gênero 2023-2024”, do Instituto Ethos, mostra que o Brasil tem potencial de se tornar referência na redução das disparidades de gênero. Mas, apesar de 94% das lideranças concordarem que é preciso empreender ações pela igualdade e pelo fim das barreiras para as mulheres no mercado de trabalho, apenas um terço das organizações acredita que faltam ações de diversidade e inclusão específicas para mulheres.

Dificuldade em alcançar populações marginalizadas

De volta ao relatório do Equal Measures 2030, o estudo diz que, nos últimos anos, quase um terço dos países fizeram progressos rápidos em direção à igualdade de gênero, mas os melhores avanços ocorreram onde o índice de igualdade foi considerado “pobre” ou “muito pobre”. Ou seja, é mais fácil atingir bons resultados tendo um ponto de partida baixo. Os países mais igualitários têm dificuldade em alcançar as populações marginalizadas e erradicar de fato a desigualdade. Segundo o Equal Measures 2030, tal estagnação os aproxima de condições de retrocesso.

Em 2024, pela primeira vez em uma década, caiu a porcentagem de financiamento público de países ricos destinado a questões de gênero em países de baixa e média renda. O contexto expõe mais mulheres à vulnerabilidade: na análise de igualdade econômica e de gênero da Equal Measures 2030, entre 2019 e 2022 a desigualdade de renda estagnou ou se tornou pior em três quartos dos países. Não por acaso, os índices relacionados aos ODS para Igualdade de Gênero no Combate à Fome e Igualdade de Gênero para Paz, Justiça e Fortalecimento das Instituições tiveram as maiores quedas no mundo. Segundo o estudo, “a igualdade está fortemente relacionada à democracia, mas a política mundial passa por uma perigosa escalada da polarização e repressão de direitos civis”. 

O que as empresas podem fazer para mudar o quadro de falta de igualdade de gênero

O que as empresas podem fazer para mudar o quadro de falta de igualdade de gênero
Foto: Jacob Lund/ Adobe Stock

Além de governos, as empresas podem repensar estratégias para alcançar suas próprias metas de igualdade de gênero e ajudar a melhorar o cenário mundial em relação a esse tópico.

A ONU reforça que as empresas são fundamentais para criar soluções sustentáveis e inovadoras, colaborar com ONGs e investir e financiar ODS com práticas de governança corporativa e responsabilidade social.

Adaptando a cartilha do Equal Measures 2030, o texto publicado na Think Eva destaca cinco esforços principais para as empresas impulsionarem a igualdade de gênero, dentro do atual e futuro ambiente econômico.

1. Aumentar a liderança feminina

52% das organizações com políticas afirmativas têm metas para promover mais mulheres na liderança, mas elas ocupam apenas 19% dos Conselhos Administrativos. Já as mulheres negras são apenas 2% desses cargos e somente 7% das empresas têm metas para que elas cheguem à liderança.

2. Reformar e implantar políticas de igualdade

78% das empresas adotam políticas de igualdade de gênero, mas apenas 37% têm metas para reduzir a desigualdade salarial, embora o requisito esteja previsto em lei. Políticas de igualdade devem ser atualizadas e eficazes para responder a situações discriminatórias e promover inclusão.

3. Levantar dados sensíveis a gênero

Com dados assertivos podemos construir políticas assertivas. Por exemplo, 30% das empresas atribuem a falta de mulheres na liderança à baixa qualificação, mas as mulheres são mais escolarizadas do que os homens, e o que de fato afeta suas carreiras é a sobrecarga da dupla ou tripla jornada de cuidado.

4. Investir no suporte ao cuidado

Apoios como creches, licenças parentais e jornadas flexíveis são essenciais para promover a equidade de gênero. No entanto, apenas 19% das empresas oferecem licenças-paternidade superiores a 20 dias.

5. Criar espaços de apoio

Grupos de afinidade servem para mulheres se apoiarem e proporem melhorias no ambiente de trabalho. Esse é o tipo de grupo mais presente em empresas que investem em Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I), o que impulsiona a transformação organizacional.

Dúvidas mais comuns

Igualdade de gênero refere-se ao princípio de que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos, oportunidades e tratamento, sem discriminação baseada em gênero. Isso inclui aspectos sociais, econômicos e políticos, como educação, trabalho, saúde e participação social.

Nenhum país está a caminho de atingir os objetivos de igualdade de gênero até 2030, e a previsão é que essa meta só seja alcançada no próximo século. Entre 2019 e 2022, quase 40% dos países estagnaram ou declinaram nos índices de igualdade para as mulheres, devido a crises econômicas, sociais e políticas.

O Brasil tem um índice considerado "pobre" em igualdade de gênero, ocupando a 64ª posição global e o 6º na América Latina. Apesar de avanços rápidos entre 2019 e 2022, o progresso deve desacelerar. O país se destaca em leis que protegem orientações sexuais e identidade de gênero, mas ainda tem baixa presença feminina em cargos de alto escalão.

Os desafios incluem a estagnação ou retrocesso nos índices de igualdade, a dificuldade dos países mais igualitários em alcançar populações marginalizadas, a queda no financiamento público para questões de gênero e a persistente desigualdade econômica e salarial entre homens e mulheres.

As empresas podem aumentar a liderança feminina, reformar e implementar políticas de igualdade eficazes, levantar dados sensíveis a gênero para criar políticas assertivas, investir em suporte ao cuidado como creches e licenças parentais, e criar espaços de apoio como grupos de afinidade para mulheres.

Dados precisos sobre gênero permitem que as empresas entendam as reais causas das desigualdades, como a sobrecarga da dupla ou tripla jornada de cuidado que afeta as carreiras das mulheres, possibilitando a criação de políticas mais eficazes para promover a igualdade.

Exemplos incluem salários iguais para trabalhos iguais, direito ao voto para todos os cidadãos independentemente de gênero, e acesso universal à educação e justiça. Esses exemplos mostram que pessoas em situações semelhantes devem ter as mesmas oportunidades e tratamento sem discriminação.